Diversos movimentos, coletivos e organizações negras e antirracistas, convocam a população pernambucana para um ato, que acontecerá nesta segunda (16), na praça do túnel da abolição, no bairro da Madalena.
Em nome do Deus cristão, o pastor pratica crimes de intolerância e charlatanismo, disseminando um ódio contra pessoas negras, travestis, transsexuais e homossexuais. Ao se referir a travesti Raphaela Ribeiro ele defende o desrrespeito de sua identidade de gênero alegando se referir a ela a partir dos olhos de Deus. Os delírios do pastor também incorpora a narrativa da “agenda globalista” onde crê que existe uma articulação internacional para promover acomodação social de práticas antinaturais. Cabe ressaltar que o argumento de anti-naturalidade da homossexualidade e da transsexualidade é refutado pela ciência ao comprovar a existência de comportamentos e transformações corporais que transgridem os gêneros em diversas espécies no reino animal.
O cristianismo se consolidou neste território a partir da colonização, que puniu e criminalizou práticas culturais negras e indígenas por considerarem-nas demoníacas. O Tribunal da Santa Inquisição revela o passado nefasto do cristianismo que espalhou pavor e medo na sociedade justificando assassinatos de pessoas e reputações em nome da verdade de um deus sádico e autoritário, atualmente são as igrejas evangélicas neopentecostais responsáveis pela perpetuação da violência cristã para dominação social e política. O processo histórico em que boa parte do que é produzido pela população negra é desumanizado, desvalorizado ou considerado estranho e perigoso estimula a visão da religião africana como ligada ao culto ao demônio, diabo, satanás, rituais satânicos, macumba ou que fazem o mal.
Discursos que associam a dissidência sexual da supremacia branca e as religiões de matriz africana ao pecado e ao demônio tem responsabilidade direta na violência que essa população é vítima! As formas cruéis com que a transfobia, homofobia, lesbofobia, bifobia e o racismo estão sendo praticados assusta e evidencia uma base cultural onde a discriminação, perseguição e o ódio tem o aval de Deus, já que ele só aceita uma única forma de existir neste mundo.
Diante do avanço das narrativas conservadoras e intolerantes a Distro Dysca em conjunto com a ANEPE – Articulação Negra de Pernambuco, Movimento Negro Evangélico, Coletivo Periféricas, Espaço Cultural das Marias, Afronte Coletivo, Dhuzati Antiespecista, Ibura Mais Cultura, CARNI – Coletivo de Arte Negra e Indígena (CARNI), Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Articulação de Religiões de Matriz Africana e Indígena de Igarassu – PE, RENFA – Rede Nacional de Feministas Antiproibicionista e Coletivo Pão e Tinta se articulam também junto a Associação Caminhada de Terreiros de Pernambuco, para construir uma agenda de mobilizações que prevê além do ato do dia 16, uma caminhada religiosa no dia 23 de agosto e uma mobilização em Igarassu com data ainda a confirmar.
Dia 08/08, a partir das 19h o #antiprojetoanarcofake chega ao vivo em streaming, pra uma apresentação única e certamente memorável.
Surfando na onda do colpaso, Mogli Saura vem com as 4 músicas do EP e + 1 em primeiríssima mão com a Monstruosas fazendo provocações estigantes e naquele papo pancada sobre esta granada contra a pureza e a norma que este projeto propaga e trás consigo.
Música + Provocações + Vômitos + Feitiços + Agora contra a normalidade
A live é uma oportunidade de apresentar Mogli Saura e seu Anti Projeto, a esta nova geração que segue embalada pelo funk escrachado protagonizade por LGBTS. A artista vem abrir um pouco mais a ferida, já assimilada pelo mercado, fazendo questão de mapear e historicizar estas criações como parte de um movimento contra cu-ltural de combate ao Cistema Heterocapitalista da Supremacia Branca
Inspirações, decepções, conspirações, frustrações e fracasso.
O zine do Anti Projeto Anarco Fake conta com o texto “Do punk pro funk, do funk pro fake: Uma história de dissidências e atualizações na cena contracultural e libertária brasileira” e uma entrevista exclusiva que a Monstruosas fez com a artista, papão super sincero que atualiza os questionamentos radicais que infeccionou a normalidade branca e o anarquismo brasileiro na ultima década, além de reflexões importantes a cerca das políticas que circulam a dissidência sexual, o racismo e o capitalismo.
A publicação é uma espécie de antologia do que a artista chama de contra (CU)ltura, resgatando, historicizando e homenageando outros trabalhos, sem deixar de localizar as políticas radicais que pregam rupturas totais.
O zine custa 20$ e os pedidos devem ser realizados até o dia 09/08, através de nossas redes sociais. As postagens se darão via correios (custo da postagem pra compradore) a partir do dia 11/08, após a consulta do frete via CEP e confirmação do depósito/transferência de pagamento.
Desde o dia 18/07 está no ar o Anti Projeto Anarco Fake, uma resposta de Mogli Saura aos processos vivenciados nas movidas dos ativismos políticos radicias, trazendo a experiência do AnarcoFunk e do AnarcoBrega, expressões contraculturais que protagonizou no início dos anos 2010. A artista compõe músicas com letras extremamente provocativas fazendo não só um ataque, como também um verdadeiro deboche anticolonial com as verdades, purezas e rupturas pregadas por coletivos e indivíduos que assumem a política como religião e a radicalidade como dogma.
Ménage a Coiote é o single que arrasta toda a elaborada agenda de lançamento do projeto, e tem seu clip hospedado pela plataforma EhCho. Uma homenagem – trocadilhada com um ménage – ao controverso Coletivo Coiote, conhecido nas pelas suas performances desaforadas que atualizaram o gênero artístico, dentre elas a belíssima intervenção na Marcha das Vadias do Rio de Janeiro, onde destruíram uma estátua de Nossa Senhora além de usarem símbolos religiosos como dildos durante a visita do Papa Francisco, autoridade máxima da instituição mais racista, sexista e supremacista da história da humanidade, à capital carioca.
Mogli Saura protagoniza o Anti Projeto Anarco Fake
Segundo Mogli “nesse ménage (que na verdade é um surubão) Mana Joaquina chupa a buceta da Maria Bonita, Chico Science lambe cu de Lampião e o troca-troca segue o flow dos nossos tempos, embalado pela coragem degenerada do Anti-Projeto.”
A Distro Dysca entra neste projeto distribuindo o zine organizando pela Monstruosas e convidando seu público a acompanhar uma live exclusiva com a artista. O zine conta com o texto “Do punk pro funk, do funk pro fake: Uma história de dissidências e atualizações na cena contracultural e libertária brasileira”, uma contextualização sobre as vivências, as inspirações e decepções que leva ao Anti Projeto e a entrevista completa que Mogli concedeu a Monstruosas, onde parte dela você pode conferir no blog também hospedado aqui no milharal.
Já a live será uma oportunidade de apresentar Mogli Saura e seu Anti Projeto, a esta nova geração que segue embalada por um funk escrachado protagonizados por LGBTS, a artista vem abrir um pouco mais a ferida, já assimilada pelo mercado, fazendo questão de mapear e historicizar estas criações como parte de um movimento contra cu-ltural de combate ao Cistema Heterocapitalista da Supremacia Branca.
No dia 19 de Maio, se não tivesse sido assassinado covardemente há exatos 55 anos atrás, Malcolm X completaria 95 anos. O ativista preto ficou marcado pela defesa pública de uma “separação racial completa” como a única solução para o fim do sofrimento dos pretos em diáspora.
Como a população preta nas Américas foi sequestrada e obrigada a vir para o continente contra sua própria vontade, perdendo sua língua, cultura, estrutura e nome familiar, Malcolm acreditava que qualquer forma de integração não poderia servir para justificar ou reparar a brutalidade do crime já cometido. Por conta de centenas de anos de tortura, escravização e implicação desigual das leis, ele pregou que os pretos deveriam romper com os Estados Unidos e formar uma outra nação em seu solo, se opondo às filosofias integracionistas defendidas pelos liberais brancos e líderes de direitos civis convencionais como Martin Luther King Jr.
Em sua prática política diferenciou dois tipos de povos negros que existiram ao longo da história da diaspóra, com foco nos Estados Unidos, a metáfora é facilmente compartilhada em todos territórios da América: “o negro da casa grande” e “o negro da senzala”, uma distinção que se originou durante a escravidão. “o negro de casa grande” morava na casa, com o dono, vestia-se razoavelmente bem e comia bem porque podia receber o que o senhor deixou, morava no sótão ou no porão, perto do senhor e o amavam mais do que o próprio senhor amava a si mesmo.
Nas plantations haviam os “negros da senzala”, eles eram comumente espancados, desde a manhã até a noite, moravam num galpão, comia restos, usava roupas descartadas e odiava seu senhor.
Para Malcolm, o moderno “negro da casa grande” eram os negros “burgueses” que desejavam se assimilar à sociedade branca, contrastando com as “massas negras oprimidas, insatisfeitas e impacientes” que formaram a “irmandade” da Nação do Islã, grupo político e religioso islâmico de cunho fundamentalista, fundado em Detroit, Michigan, em julho de 1930.
Um mural no Malcolm X Park, nas ruas 51 e Pine, representando Malcolm X e sua esposa Betty Shabazz.
Contudo, Malcolm começou a discordar da posição passiva do NOI frente as opressões racistas. Filosoficamente, estava cada vez mais frustrado com a passividade política de Elijah Muhammad, líder da NOI. Ele queria que a organização se envolvesse em protestos e colaborasse com outros líderes e organizações pretas, atos proibidos por Muhammad. Depois que Ronald Stokes, oficial da NOI foi assassinado e outros seis membros foram baleados em um confronto com a polícia de Los Angeles, Malcolm localizou o atentado como chacina e quis responder a altura, mas Muhammad ordenou que ele se afastasse. Espiritualmente, Malcolm estava tendo cada vez mais receios sobre a teologia da NOI, os conceitos sectários, e suas contradições fundamentais ao mainstream do Islã, um desconforto que se originou durante uma viagem ao Egito e ao Oriente Médio em 1959.
Diariamente, ele estava sendo monitorado pelo Departamento de Serviços Especiais do Departamento de Polícia de Nova York, pelo FBI e pela CIA e dentro da Nação, Malcolm esteve envolvido em implicações veladas e comentários negativos sobre os outros ministros da NOI e foi acusado de tentar assumir a NOI, receber crédito pelos ensinamentos de Muhammad, buscar publicidade para si mesmo e tentar para construir seu próprio império. Adicionado:
Para Malcolm, o moderno “negro da casa grande” eram os negros “burgueses” que desejavam se assimilar à sociedade branca, que contrastavam com as “massas negras oprimidas, insatisfeitas e impacientes” que formaram a “irmandade” da Nação do Islã, um grupo político e religioso islâmico de cunho fundamentalista, fundado em Detroit, Michigan, em julho de 1930
Malcolm não recebeu mal as acusações, pois Muhammad havia lhe avisado que passaria a ser odiado e invejado quando se tornasse mais conhecido. Ele entendeu que as alegações “me ajudaram a reforçar minha determinação interior de que essas mentiras nunca se tornariam verdadeiras para mim”.
O corte mais cruel de todos ocorreu com a confirmação de Malcolm do adultério de Muhammad. Desde meados da década de 1950, surgiram boatos sobre os casos do líder da organização e suas secretárias pessoais. Em abril de 1963, ele conversou com as secretárias e o próprio Muhammad e concluiu que os rumores eram verdadeiros. Em março de 1964, ele deixou a Nação e, depois de fazer o hajj em Meca e adotar o islamismo sunita, começou a rejeitar suas crenças passadas.
Ele foi assassinado em 25 de fevereiro de 1965, na cidade de Nova York. Aos 39 anos.
Gerações de pretos nascidos no território tomado pelos Estados Unidos da América foram influenciadas pelo brilhantismo, bravura, franqueza, ousadia e incontestável amor, carinho e preocupação de Malcolm X pela população preta. Ele teve uma importância duradoura, inspirando indivíduos como Stokely Carmichael , os Panteras Negras, Angela Davis e uma série de líderes trabalhistas. Sua retórica, suas explicações, sua agressividade, seus conceitos radicais, seu anti-racismo, sua ideia de os negros serem uma nação – tudo isso influenciou outras organizações.
Malcolm X fala em auditório em 1963
Em seu aniversário de 95 anos, Ilyasah Shabazz, filha do falecido Malcolm X, reflete sobre o legado duradouro de seu pai e seu significado neste momento. Quando El-Hajj Malik El-Shabazz deixou sua forma humana, a sociedade que ele se aventurou a mudar não estava pronta para sua visão de igualdade.
“As pessoas costumavam dizer, Malcolm está com raiva, ele é violento. Agora podemos ver que ele simplesmente teve uma reação profunda à injustiça.” Ilyasah Shabazz
A “filha número três”, como é carinhosamente conhecida, é, há vários anos, a guardiã do legado de seu pai. Como autora de “Growing Up X” e o futuro, The Awakening , ela se aprofundou sobre quem era Malcolm X e compartilhou sua mensagem para aqueles abertos o suficiente para ouvi-la. Ilyasah era muito nova quando testemunhou o assassinato de seu pai. Hoje ela ressuscita seus ensinamentos para uma celebração de um dia de sua vida.
Ilyasah Shabazz e Angela Davis participam do comício na Marcha das Mulheres em Washington em 21 de janeiro de 2017 em Washington, DC.
Com convidados musicais especiais como Erykah Badu, Common, Chuck D. e Stevie Wonder, além de ativistas políticos como Angela Davis, a Rev. Al Sharpton e Ayanna Pressley, o “Malcolm X Day”, segundo Shabazz, é um momento para explorar o que seu legado significa neste momento. “Você não pode deixar de confiar nas palavras dele como uma reação ou precursor do que está acontecendo hoje e do que continuamente acontece”, diz Shabazz, ao mesmo tempo em que é uma oportunidade para as pessoas se unirem e reconhecerem quem realmente é o pai dela. Era o que significa uma comunidade coesa, estar unida em sua luta pela eqüidade.
“Organizamos esse dia para não apenas celebrarmos Malcolm”, diz Shabazz, “mas também para criar uma aliança e fazer com que as pessoas vejam a importância de se unir, a importância do planejamento e da estratégia em torno do que quer que seja. precisamos realizar. “
Embora tenham se passado 55 anos desde o assassinato de Malcolm X , os assassinatos de Breonna Taylor¹ e Ahmaud Arbery² lembram aos que carregam o legado de X que muito pouco mudou. Shabazz diz que ainda devemos lutar para acabar com a brutalidade policial, e ainda devemos lutar para acabar com a injustiça. “Quando você chega em casa e vê a matança e brutalidade absoluta de policiais, intolerantes, matando crianças negras porque são negras, espancando mulheres, homens jovens, idosos com tanta violência”, lamenta Shabazz. “É traumático quando você entra nas mídias sociais e vê um assassinato bem na sua frente. Então, acho que agora, quando vêem Malcolm, conseguem colocá-lo em contexto, entendendo o que ele estava falando. Por que ele teve uma reação tão profunda à injustiça.
A terceira filha mais velha acredita que há tantas coisas que, como sociedade, precisamos fazer. E ela espera que celebrar a vida de seu pai ajude as pessoas a entender que a razão pela qual seu pai protestou com ousadia é porque ele não queria que as gerações futuras se encontrassem no mesmo lugar exato em que ele estava durante seus dias.
Ao descobrir sua humanidade e sua empatia, o autor e ativista também espera que as pessoas sejam inspiradas, nesses tempos sem precedentes, a se ativarem em torno dos ensinamentos que vieram para definir o legado de seu pai. “A COVID nos deu uma grande oportunidade de ficar parado, quieto e ouvir o que está acontecendo ao nosso redor e o que está acontecendo dentro de nós”, observa Shabazz. “Quem somos nós? O que é importante no esquema maior das coisas? O que estou descobrindo é que mais pessoas estão se voltando para Malcolm. E eles estão ouvindo o que ele está dizendo. E eles estão tendo esses momentos de iluminação.”
Malcolm não era quem defendia a violência. Ele estava reagindo a isso. E ele estava reagindo a isso por compaixão e por amor. Ilyasah Shabazz
Os eventos de 27 de abril de 1962 levaram Malcolm X a seu próprio momento decisivo. Quando a polícia de Los Angeles entrou em uma mesquita da Nação do Islã e feriu sete muçulmanos desarmados, deixando William Rogers paralisado e Ronald Stokes morto, o auto-descrito ministro muçulmano ficou impressionado com a barbárie. A comunidade negra reconheceu o ataque às vidas negras pelo que era. Malcolm X aproveitou o momento para ilustrar a necessidade de mudanças radicais. É a mesma mudança que Ilyasah Shabazz diz que ainda é necessária hoje. “Nós lutamos a mesma luta desde que sabemos. Desde a escravidão, estamos lutando a mesma luta ”, diz ela. “Acho que devemos identificar o que é e reconhecer que existem 8 bilhões de pessoas neste mundo, a grande maioria das quais deseja paz, justiça e igualdade. Quando você olha a partir dessa perspectiva, percebe que podemos fazer mudanças. ”
A esse respeito, o autor do livro infantil Malcolm Little: O menino que cresceu para se tornar Malcolm X, está esperançoso para as próximas gerações. O pai dela queria que fôssemos destemidos em nossa busca pela liberdade, destemidos em nossa busca pela equidade e pela mudança. Ela acredita que agora é possível. Citando Toni Morrison, ela diz, as gerações à nossa frente entenderão seu valor e dignidade como pessoas negras. Eles não precisarão gastar tanto tempo tentando provar a si mesmos. Embora a história tenha tentado despir-nos tudo o que Deus nos deu, diz Shabazz, perceber o que temos e quem nos deu “faz toda a diferença”.
A filha amorosa confessa que não herdou o amor de seu pai pela leitura, ou suas brilhantes habilidades oratórias, mas acredita que recebeu sua empatia e seu desejo de ver uma América remodelada. É o que ela insiste que seu pai sempre quis. Embora ele tenha sido frequentemente pintado como um extremista violento, Shabazz afirma: “Malcolm não era quem defendia a violência. Ele estava reagindo a isso. E ele estava reagindo a isso por compaixão, por amor, por fé em nossa humanidade, fé em Deus e fornecendo um plano de como essa luta pela injustiça terminaria. ”
No século 21, Malcolm X ainda fala. Shabazz acredita que não há tempo melhor do que seu aniversário de 95 anos para dar ouvidos à sua mensagem.
NOTAS
1 – Breonna Taylor trabalhava em Louisville, Kentucky, dentro do conforto de sua própria casa quando, segundo um relatório do Washington Post x 19º, policiais entraram em seu apartamento e atiraram fatalmente na jovem de 26 anos.
2 – Ahmaud Arbery, de 25 anos, foi morto a tiros por pai e filho enquanto passeava correndo em um bairro suburbano perto de sua casa. Ninguém foi responsabilizado.
Por Laís Zinha Texto originalmente publicado no Medium
Reformulando minha escrita e acrescentando um ponto fundamental que optei por deixar fora na primeira parte da minha reflexão sobre as problemáticas de uma identidade “afroindígena”, escrevo esse novo texto que tem como princípio uma interpretação minha constituída através de longas conversas com outros indígenas, de diferentes povos, ao longo de cinco anos, em que a esmagadora maioria apresenta o mesmo incômodo que eu. Deixo explícito desde já que a forma como construo minha reflexão não é necessariamente a reflexão dos parentes com quem conversei, mas do compartilhamento específico desse incômodo acerca da identidade “afroindígena”.
Dividirei o texto em três partes, sendo a primeira voltada a uma fundamentação teórica no debate racial sociológico, a segunda constituída de uma análise focada na parte racial e a terceira parte é referente à especificidade dos povos originários: a identidade étnica.
Introdução à questão racial brasileira na Sociologia
O debate em torno das relações raciais é objeto de análise que parte da área da Sociologia, pois, o conceito de “raça” é um conceito sociológico. Então não é um conceito biológico como se tinha no século XIX com as teorias raciais. Disto, coloca-se de antemão a definição de raça de Guimarães (2003):
discursos sobre as origens de um grupo, que usam termos que remetem à transmissão de traços fisionômicos, qualidades morais, intelectuais, psicológicas, etc., pelo sangue
(GUIMARÃES, 2003, p. 96).
Dessa forma, raça não é uma categoria natural, mas uma categoria construída que se analisa por meio dos discursos, que estão diretamente conectados com os processos histórico-sociais, políticos e culturais. Assim, para se analisar a questão racial é preciso ter em conta que ela é um debate territorializado, ou seja, específico do contexto de cada país. É muito importante também pensar em análises com recortes regionais, pois, não houve homogeneidade nos contextos que estruturaram as relações raciais no país.
As análises clássicas em torno das relações raciais na Sociologia estão centradas na questão do negro na sociedade, como em Holanda (1936), Prado Jr. (1942), Bastide & Fernandes (1959) e Fernandes (1965), de modo que as produções posteriores na área as utilizam como referências primordiais para suas fundamentações teóricas (que explicarei adiante), como em Hasenbalg (1979) e Guimarães (2004; 2005; 2012), Campos e Machado (2015), Lima e Prates (2015), Lima, Machado e Neris (2016).
A fundamentação teórica do debate racial, seja clássico ou contemporâneo, tem a presença indígena como alegórica, no sentido de que sua contribuição para a formação do país está relegada ao âmbito cultural, através de costumes e alimentação por exemplo, estagnada nos séculos XVI ao XVIII, como em Holanda (1936), Prado Jr. (1942), Bastide e Fernandes (1959), ou mesmo essa presença indígena é inexistente, pois, pensa-se a categoria indígena como uma questão puramente étnica… e ela não é.
Assim, entro na questão de “indígena” enquanto uma categoria racial, ou seja, uma raça. É importante colocar desde já que, sim, existem povos originários/indígenas em todos os continentes do mundo, mas como disse anteriormente: debate racial é territorializado. E no Brasil, “indígena” foi construído como uma raça, sob a alcunha do “índio” principalmente. Não somente, mas a própria noção de raça somente surgiu com a invasão de Abya Yala a partir de 1492, como Quijano (2000) argumenta:
a ideia de raça, em seu sentido moderno, não tem história conhecida antes de América (…). A formação das relações sociais fundadas nesta ideia [raça], produziu em América identidades sociais historicamente novas: índios, negros e mestiços.
QUIJANO, 2000, p. 246
Isto é, após a invasão de nossos territórios, as relações de dominação entre identidades sociais caracterizaram-se por uma hierarquização de conotação racial. De certo a “raça” no século XVI não tem a mesma concepção de “raça” que se tem na Sociologia atualmente, no entanto, repito: análises sobre “raça” são sobre discursos. Logo, por mais que fosse um discurso com referências a supostas diferenças estruturais biológicas e fenotípicas, não é a mesma concepção das teorias raciais do século XIX que buscavam naturalizar essas supostas diferenças com base em estudos biológicos. Por isso é importante colocar a questão do surgimento da noção de “raça”, pois, é a partir dela que se tem a estruturação do “índio” como uma raça no Brasil.
E por que indígena é uma raça e não etnia? Porque “etnia” é sobre os mais de 305 povos que aqui existem atualmente. Estes povos são colocados dentro de uma grande categoria genérica (indígena) que tem seu viés racial devido aos processos de racialização que fomos submetidos ao longo de cinco séculos. Sendo racialização entendida como
processo de caracterização das diferenças humanas de acordo com os discursos hierárquicos estabelecidos desde o período colonial e os legados nacionais de cada marcador.
APPELBAUM, MACPHERSON & ROSEMBLATT, 2003, p. 2
Portanto, ressalto novamente: indígena se estruturou como uma raça no Brasil sob a denominação “índio”, em que os processos históricos, sociais e políticos referente aos povos originários foram configurados de maneira a não distinguir etnicamente os “índios”, mas a criar esse caráter de generalidade racial… o que nos levará ao etnocídio e às próximas partes desse texto.
Identidade racial e etnocídio
Esta parte eu divido em três pontos que discorrerei separadamente: 1) não acredito que exista uma identidade racial afroindígena; 2) uma identidade afroindígena é etnocida; 3) a perpetuação de uma visão romantizada e racista do que é ser indígena.
Não acredito que exista uma identidade afroindígena
Reparei ao longo dos anos que ancestralidade é entendida de maneiras distintas por indígenas e não-indígenas. Falarei nessa parte sobre ancestralidade a partir da perspectiva do não-indígena (porque ancestralidade em nosso entendimento será na terceira parte desse texto): a identidade não é a ancestralidade. São coisas interligadas, mas não são a mesma coisa.
Para tentar explicar essa diferenciação que ocorre entre identidade e ancestralidade, é preciso fazer um resgate histórico do Brasil acerca dos processos de miscigenação e embranquecimento e da construção do “índio”.
O Brasil foi construído em cima da ideia de miscigenação, que foi na verdade um processo de extremas violências aos povos indígenas e ao povo negro, incluindo estupros das mulheres, genocídio e, em específico aos primeiros, etnocídio. Dessa forma, não existe ninguém com “sangue puro” nesse país… e não sou somente eu quem digo, estudos genéticos ao redor do mundo evidenciam isso (só pesquisar).
Mas parece contraditório eu falar sobre estudo genético quando eu digo que raça não tem a ver com conceito biológico, né? Não é contraditório, pois, a questão sobre “pureza racial” é justamente uma questão de genética, que foi muito defendida pelos eugenistas e nazistas. Só por esse aspecto, já poderíamos simplesmente por dedução lógica pular a maior parte desse texto, mas infelizmente ainda precisamos explicar que pra ser de uma “raça” não se requere pureza racial. Ou seja, a democracia racial não existe e nem por isso “somos todos pardos”.
Então, voltando à “pureza racial”, caso tenha dúvidas, faça um mapeamento genético e você descobrirá que em algum momento de sua árvore genealógica, terá existido alguma espécie de relacionamento inter-racial, mesmo que você desconheça, pelo simples fato de que a miscigenação no Brasil foi uma política de Estado que buscava criar um sentimento de união preconizado em uma identidade nacional… nesse processo, (o mito) a democracia racial foi um agente muito importante para disseminar essa ideia.
Sobre os relacionamentos inter-raciais, é preciso deixar claro que “relacionamento” não implica necessariamente em consentimento ou algo positivo. Pois, o sequestro e estupro de mulheres indígenas foi uma ferramenta de dominação colonial muito utilizada e, inclusive, romantizada e legalizada (como na Lei de Pombal, que “incentivou” o casamento entre indígenas e brancos… nós indígenas sabemos o que realmente significava esse incentivo).
Então, por conta da miscigenação e da consequente inexistência de pureza racial no Brasil, decorre-se que, de forma geral, temos combinações de ascendências/ancestralidades. Isto é, podem-se ter ancestralidades dos três povos ditos constituintes da nação: indígena, negro e branco. Não necessariamente dos três, mas também não somente de um, pois, estou partindo da colocação de que não há purismo racial no Brasil. Após o século XX, há a vinda dos amarelos e, portanto, constituem-se como um novo integrante nessa questão. O foco neste momento é anterior ao século XX, portanto, considerarei apenas indígenas, negros e brancos e desconsiderarei a questão do pardo, por motivos de que fugiria do meu tópico de reflexão nesse momento.
Mas, afinal, e a identidade? A princípio, cada povo apresenta sua própria concepção de identidade e não pretendo me alongar nessas distinções, porque seria impossível, pois, para as tratar de maneira detalhadamente correta, precisaríamos conhecer a concepção do que é ser indígena para cada etnia (reconhecida ou não pela Funai), ou seja, mais de 305 povos, além da concepção da identidade negra/preta para os quilombolas e cada corrente do movimento negro e, por fim, da identidade amarela para os diferentes povos que estão englobados nesta categoria racial. Humanamente impossível, né? Então, trabalharei com o básico, partindo de duas perspectivas.
A perspectiva estatal/legal/burocrática, centrada principalmente no IBGE através dos Censos e da PNAD.
De forma resumida, atualmente há cinco categorias de classificação racial no país: indígena, pardo, preto, amarelo e branco. Por que eu falo atualmente? Porque a composição das classificações raciais não foram sempre assim, na verdade, ela é assim desde 1991. O primeiro recenseamento do país foi em 1872 e foi dividido em duas dimensões: população livre (branco, pardo, preto e caboclo) e população escrava (preto e pardo). Para além das inúmeras falhas metodológicas e analíticas desse recenseamento, foco minha atenção para a categoria caboclo, que esteve presente somente neste Censo e no seguinte de 1890, representando índios e descendentes de índios com brancos.
Um importante fator a ser posto aqui é a questão de que “índio” era considerado como uma categoria social transitória até a Constituição Federal de 1988, ou seja, após passar pelos processos de integração social e assimilação cultural, índios deixavam de ser índios e eram realocados em outras categorias raciais (projeto explícito inclusive na elaboração das diretrizes do SPI/SPILTN). Castilho (2011) analisa a proposta do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN), que entende o índio por meio da “percepção de permeabilidade” (CASTILHO, 2011, p. 1), ou seja, a transformação do indígena em trabalhador agrícola através do poder tutelar: “através da educação eles deixariam de ser índios e se transformariam em trabalhadores nacionais” (CASTILHO, 2011, p. 14). O objetivo dessa transformação é de se criar um caráter nacional, respaldado na “mestiçagem”, e, assim, propiciar a imagem de uma sociedade concebida como homogênea.
Essa configuração do “índio” como uma fase não se faz presente somente no século XX, desde a vinda dos jesuítas essa noção estava colocada, por meio dos processos de catequização e seus processos de educação. Freycinet (1825), narrado por Freire (2019), exemplifica muito bem esse processo de “desindianização” com a história do Quati César:
Arborícola, de hábitos noturnos, César se adaptou às novas condições. Trocou a noite pelo dia. Em vez de vadiar na noite sobre árvores, dormia em beliche nos camarotes. Costumava assistir ao jogo de baralho dos tripulantes, quando aprendeu a beber vinho francês. Metia seu focinho nas canecas e chupava doses do “rouge qui tache”. Gostou. Viciou. Tomava porres homéricos. Virou alcoólatra. (…) Assim, o quati atravessa as três categorias em que ele divide os índios: “selvagens”, “semicivilizados” e “civilizados”. O quati, que era selvagem e arredio, torna-se “semicivilizado” e depois “humaniza-se”, já batizado com nome cristão, quando adota usos, costumes e vícios da tripulação, com a qual aprende a conviver.
FREIRE, J. B. 2019, online
Com isso, evidencia-se que a história do quati César se constrói como uma analogia ao processo de etnocídio, marcando o indígena em uma identidade dividida por três fases: selvagem, semicivilizado e civilizado, de modo que na história, narra-se como o quati César atravessa as categorias e, por fim, aprende a conviver com a população de marinheiros com quem viajou, em uma correlação com o indígena que assim o deixa de ser e se torna cidadão brasileiro.
Reduz-se, portanto, a população indígena não somente através do genocídio — da morte física –, mas do etnocídio — da morte étnica e cultural –, através da estruturação das políticas assimilacionistas e integracionistas de Estado que, na prática, constitui-se como uma negação ao direito do pertencimento étnico-racial devido ao caráter transitório associado ao índio, em que tal identidade significa atraso e inferioridade diante das demais categorias raciais que, por sua vez, fazem parte do corpo nacional. Dessa maneira, Castilho (2011) argumenta que
o indivíduo indígena conseguiria atravessar os poros da alteridade e inserir-se no corpo nacional concebido como civilizado. Porém, o sujeito indígena entendido como um sujeito portador de uma cultura diferente da concebida como civilizada, não conseguiria atravessar essa fronteira da alteridade interdita, constituindo-se assim como impermeável ao corpo nacional. Ou seja, o indivíduo indígena para inserir-se no corpo nacional através da educação assimilacionista, que visava transformá-lo em trabalhador nacional, teria que deixar de ser o sujeito indígena.
CASTILHO, 2011, p. 15
Obviamente tudo isso se refletiu nos recenseamentos de 1872 e 1890, de forma a gerar uma subnotificação da população indígena no país. Assim como é refletido até os Censos atuais, mesmo com a presença da categoria indígena, incluída somente em 1991.
Como assim indígena só entrou no IBGE em 1991? Pois é, exatamente. Por “oficialmente” 101 anos, não houve uma categoria separada para indígenas nos recenseamentos, mas se formos tratar das problemáticas da categoria caboclo, então, podemos dizer que indígenas nunca estiveram separadamente de fato no Censo antes de 1991. A classificação racial foi excluída dos Censos de 1900, 1920 e retornou somente em 1940, mas somente com as categorias branca, preta, parda (alterada especificamente naquele ano para “mestiço”) e amarela. Nos posteriores recenseamentos, indígenas entraram invisivelmente na categoria pardo e assim se seguiu até 1991.
Todos esses processos de exclusão e apagamento da identidade indígena se configuram como violências aos povos originários, que continuam sistematicamente tendo seu direito à identidade negado até os dias atuais, pois, há processos extensos e burocráticos para validar/legitimar a identidade de um indivíduo assim que ele se autodeclara indígena, principalmente se ele não residir em Terra Indígena, o que não ocorre com as demais categorias.
Entretanto, embora contenham inúmeras problemáticas no IBGE, há um ponto que não pode ser negado: não existem categorias de classificação racial denominadas explicitamente birraciais ou plurirraciais. O pardo também está fora de questão, apesar de ter sua origem na ideia da mestiçagem, pois, ele se configura como uma nova identidade racial, que é alvo de críticas (extremamente pertinentes, por sinal) dos movimentos indígena e negro. Mas, o ponto é: pardo não evoca duas ou mais identidades raciais ao mesmo tempo. Pois, novamente, identidade não é ancestralidade. Não há nos meios burocráticos categoriais como afroindígena, euroindígena, euroafro/afroeuro, afronipo, nipoindígena, euronipo, etc.
É possível até analisar a aplicação de políticas públicas de caráter racial, que são voltadas às categorias indígena, preto e pardo e constituídas de forma a pensar no atendimento das demandas e necessidades dessas três categorias. Mas esse seria um assunto pra outra hora…
A perspectiva dos movimentos sociais e políticos que pautam a questão racial, em específico dos movimentos negro, indígena e amarelo.
Como já falei anteriormente, não pretendo tratar especificamente de cada interpretação do que é a identidade negra, indígena e amarela dentro de seus contextos específicos. O intuito é o reconhecimento da constituição de cada movimento que se fez a partir de seus processos históricos e perspectivas e visões de mundo, todos distintos entre si. No entanto, há um consenso entre os três: uma pessoa branca é uma pessoa branca. Não há aceitação dentro dos movimentos negro e amarelo pessoas se autodeclararem euroafro/afroeuro ou euro-amarela (não sei nem qual termo seria, porque ainda bem que nunca nem vi falarem algo do tipo).
No entanto, há uma aceitação quando somos nós que estamos na “identidade”, como já vi os casos de “euroindígena”, “afroindígena”, “sinoindígena”, mas a mais comum e difundida é “afroindígena”. O que nos leva à próxima questão da minha reflexão.
Identidade afroindígena é etnocida
Etnocídio é, resumidamente, o processo de extermínio das culturas e identidades indígenas/originárias, como exemplificado pelo Quati César. No Brasil, aplicado através de diversas formas: políticas de Estado e, também, de particulares; construção do pensamento e da identidade brasileira; criação do estereótipo do “índio”, etc. Cito os três, pois, são os que pretendo discutir pelo menos minimamente nessa parte, apesar de terem mais formas de aplicação dos processos etnocidas.
Primeiramente, é preciso compreender o significado e a construção do termo índio, pois, está diretamente ligado com a questão da autodeclaração/autoidentificação e heterodeclaração/heteroidentificação das identidades indígenas. Índio foi um termo criado pelo homem branco para se referir aos povos originários de Abya Yala (continente hoje chamado América) desde a invasão em 1492. Em meio a construção do que era o índio, características de personalidade carregadas de preconceitos e discriminações raciais foram postuladas: selvagem, hostil, primitivo, preguiçoso, bugre. Além disso, o índio também carrega estereótipos fenotípicos e de costumes como, por exemplo: canibal (sic), anda pelado, tem cabelo liso lambido, olho puxado, pele vermelha, vive no meio do mato, em uma tribo (sic), tem que saber atirar com arco e flecha e zarabatana, não fala português, faz a “dança da chuva” e um som de “uh-uh-uh-uh” batendo a mão na boca como forma de comunicação… e uma última característica que permeia o índio é a ideia do “purismo racial”.
Tá tudo errado!
Mas foi assim que a imagem do que era o indígena foi construída e adentrou no pensamento social do brasileiro, persistindo até os dias de hoje.
Apenas breves desconstruções e correções acerca dos estereótipos, antes de continuar minha reflexão sobre o porquê de afroindígena ser etnocida (não, eu não esqueci o objetivo disso tudo):
A noção de primitivismo se teoriza através da criação e desenvolvimento do evolucionismo cultural na Antropologia, trazendo conceitos como tribo, que é explicado abaixo por uma imagem que de quebra expõe também a questão do primitivismo. Por que eu digo sobre teorizar? Porque esse pensamento não nasceu no século XIX, basta ver as cartas do próprio Pero Vaz de Caminha, da Igreja Católica sobre não nos considerarem humanos e não termos alma, sobre a escravização de nossos ancestrais e assim por diante.
Bugre é um termo pejorativo que foi usado para designar principalmente indígenas não-convertidos ao catolicismo, mas também para justificar a escravização, pois, sua origem vem de conflitos religiosos na Bulgária no século IX e tem o significado de herege, isto é, quem está contra as doutrinas e dogmas da Igreja Católica.
O mito do índio ser selvagem tem suas peculiaridades, pois, historicamente, convencionou-se duas representações acerca da identidade indígena, fundamentada e popularizada posteriormente no indianismo brasileiro: o bom selvagem e o primitivo hostil. Tais representações não permaneceram somente no âmbito literário, foram e são constitutivas no pensamento brasileiro.
O bom selvagem era o índio aliado aos portugueses e que fora forçado aos processos de assimilação cultural e integração social para que saísse de seu estágio primitivo e animalesco e, posteriormente, viesse a ser um cidadão brasileiro e, portanto, “civilizado”. Aqui, novamente, encontramos a caracterização do índio como uma categoria social transitória. Esse indígena “aculturado” e “integrado”, no entanto, não viraria branco, daí surgem nomenclaturas para classificar esses “novos indivíduos”, a exemplo de tapuio, caipira, gaúcho, sertanejo, caboclo, caiçara, e até pardo. Disto, apaga-se a noção de uma identidade indígena e um falso pertencimento a outro grupo sem identidade étnico-racial definida.
Ademais, como o índio apresenta uma premissa de suposto purismo racial, a partir do momento em que uma pessoa nasce de um relacionamento inter-racial em que pai ou mãe é indígena, essa pessoa já não é mais indígena, mas descendente de indígena, e assim serão todos os futuros indivíduos da linhagem. Essa postura de negação de identidade não se aplica às demais raças no Brasil, pois, elas não requerem o pressuposto do purismo racial como determinante para legitimar quem o indivíduo é racialmente. Isso é aceito naturalmente e reproduzido pela maioria da sociedade, sem produzir os menores questionamentos acerca da questão, pois, está profundamente penetrado no imaginário brasileiro que o índio é tal estereótipo do século XVI.
Além disso, tem-se um cenário em que todos os povos têm o direito de acompanharem as inovações tecnológicas, culturais e sociais, com exceção dos povos originários, pois, estes devem permanecer de acordo com um estereótipo criado pelo homem branco no século XVI… e que sequer abrangia toda a diversidade e pluralidade dos povos indígenas, inclusive fenotípica!
Dessa maneira, entra também a questão do que se convencionou como “fenótipo indígena” (cabelo liso lambido e escorrido, olho puxado e a pele parda avermelhada), construído novamente pelo estereótipo do homem branco baseado em determinados povos e que ignora completamente os processos de miscigenação e embranquecimento da população (que foram inclusive políticas de Estado, como já disse).
Curiosamente, o estereótipo do índio vem carregado de elementos culturais de povos que sequer são do que é hoje chamado Brasil, a exemplo da famosa “dança da chuva”. O estereótipo do “índio” no Brasil é até de rituais de povos do Norte do continente. Sobre o som de “uh-uh-uh” batendo a mão na boca como forma de comunicação, há o processo de animalização, como se não soubéssemos nos comunicar através de línguas estruturadas e definidas. É fato que há povos que apresentam gritos que se assemelham a esse som, mas até onde eu sei, isso não é feito de maneira a bater na boca, mas mesmo que fosse… são específicos de cada povo, usados em momentos determinados com seus próprios significados.
Um exemplo que me veio à mente em torno dessa situação, foi de uma parenta que ouvi em que uma vez fizeram esse som para um outro indígena no Rio de Janeiro, na época da Copa ou das Olimpíadas (não me recordo) e aquilo representava um chamado pra guerra no povo dele. Ele pegou a borduna e queria correr atrás da pessoa, então, essa parenta teve que falar que não era um chamado pra guerra, a pessoa simplesmente estava reproduzindo um estereótipo racial (racista) e, portanto, sendo babaca.
Mas, afinal, e o primitivo hostil? Era o índio considerado em seu estágio primeiro, “puro”, “não-civilizado”, mas também se referia aos povos considerados inimigos da Coroa Portuguesa, basicamente, o oposto do bom selvagem. A representação do primitivo hostil frequentemente se associa ao tal do “canibalismo”, termo extremamente equivocado e pejorativo.
A antropofagia é erroneamente chamada de canibalismo e é tida como caracterizante de todos os “índios”, contudo, os rituais antropofágicos não eram presente em todos os povos originários e tampouco esvaziados de significados, como a noção de canibalismo passa. Não, um indígena não vai te comer (literalmente), até porque os rituais antropofágicos são proibidos há mais séculos no Brasil. E como um parente Tupinambá faz piada: “essa história de que a gente comia os brancos não faz sentido. Nós nos alimentávamos da carne de outro ser humano pra absorver seu espírito guerreiro e sua força, por que nós comeríamos branco se eles só traziam doença e morte pra nós?” (pessoas brancas, isso é uma piada pra desconstruir o estereótipo que seus ancestrais criaram sobre nós, apenas superem e lidem sem fazer drama, faz favorzinho)
Não, nós não somos preguiçosos nem éramos! Apenas tínhamos/temos outros modos de organização social, outra concepção de temporalidade, outra visão de mundo, outra relação com o meio que vivemos. Os europeus presos em sua lógica mercantil-capitalista não sabiam respeitar outras formas de organização social, política, econômica e temporal, porque eles acreditavam que os povos que não estavam no mesmo estágio que eles, eram atrasados e precisavam se desenvolver, então, impuseram seus modelos a todo o mundo, mesmo que implicassem em genocídios, massacres, subjugação e escravidão. Curiosamente, quem menos trabalha no mundo hoje é europeu, mas quem é designado como preguiçoso? Isso mesmo, não são eles… como o próprio Ricardo Albuquerque (sendo um Procurador da Justiça do Ministério Público) disse em uma palestra: “Problema da escravidão no Brasil foi porque o índio não gosta de trabalhar”. E por que, na verdade, os europeus são os que menos trabalham? Porque há uma estrutura de exploração das terras colonizadas, fundamentada atualmente no imperialismo da Europa Ocidental e dos Estados Unidos… não, não é porque “são mais desenvolvidos”, há todo um contexto histórico que garante esse “estilo de vida” deles. Mas não vou fazer uma análise do sistema capitalista aqui porque não é o objetivo, certo? Certo.
E os últimos estereótipos do índio que eu citei lá em cima que não são necessariamente inverdades, mas também não totalmente verdades. Explico…
É o seguinte: sim, a nudez era algo presente em muitos povos, mas existiam povos que tinham suas vestimentas tradicionais também. E além disso, a nudez tinha sido proibida pelo Estado na colonização e foram impostas vestimentas aos povos originários, então… segue a lógica né? Óbvio que nós também “usamos roupa de branco” se quisermos.
“Viver no meio do mato”, essa é uma expressão meio bosta pra mim, porque o não-indígena fala com um ar de algo negativo ou inferior, mas para nós não teria essa percepção. E, sim, a natureza era preservada e vivíamos/vivemos em harmonia com ela. A questão é: lembra dos processos de integração social? Então, isso significava, para além da escravização, retirar o indígena de seu território ancestral e o jogar ao léu nas grandes cidades, gerando um processo de marginalização e exclusão social, criando as famosas periferias urbanas. Então, sim, há indígenas na aldeia em meio a natureza, com as florestas em pé, preservadas (não à toa, ao redor do mundo, 80% da preservação das florestas e da biodiversidade está na mão dos povos originários). Mas também estamos nas cidades, vivendo em centros urbanos, podemos ser seus vizinhos. E também há aldeias nas cidades, que são as chamadas aldeias urbanas, por exemplo o Real Parque, sabe as favelas no Morumbi? Então, construídas em torno de aldeias e esses indígenas ainda vivem lá sim e continuam sendo indígenas.
“Obrigatoriamente atirar com arco e flecha e zarabatana”: bem resumidamente mesmo, o Estado ao longo de cinco séculos proibiu os povos originários de exercerem e viverem em suas culturas, com suas práticas e tradições ancestrais. Além de ter forçado migrações e sequestrado indígenas de seus territórios. Em suma, não somos obrigados a saber, mas podemos saber, e se não soubermos, não somos “menos indígenas” por isso.
Sobre o último estereótipo citado: não poder falar português. Historicamente, os povos originários foram proibidos de falar em suas línguas nativas e forçados a falar… adivinha qual língua? Português. Grande parte do Brasil até o século XIX falava majoritariamente o Nheengatu, é verdade, mas a imposição de outra língua, mesmo uma que seja derivada do Tupi Antigo (com influências do português de Portugal), ainda é uma forma de violência, principalmente para povos que não são/eram falantes de Tupi. Nesse contexto de imposição pra lá, proibição pra cá, muitas línguas se perderam e não podem mais ser recuperadas, então, sim, falamos português e também podemos falar nossas línguas nativas. Não, não é porque uma pessoa é indígena que ela sabe falar todos os idiomas indígenas, porque oficialmente existem 274 idiomas. Então, se você souber falar 275 línguas, você pode pensar em cobrar isso de algum indígena. Caso contrário, contente-se com o nosso português, que também podemos dominar (diferentemente do que o Ministério do Turismo tem propagado, mas essa é história pra outro dia, hehe). E nossas línguas nativas são uma forma de resistência, não nos cobre tradução se falarmos no idioma originário, talvez estejamos falando justamente pra você não entender.
Depois dessa breve introdução ao debate do estereótipo do índio e da discussão sobre o processo de miscigenação no país, temos um contexto que a mentalidade do brasileiro é de negar ou apagar a identidade indígena dos debates que envolvem questões raciais e da construção histórica das identidades dos brasileiros. Esse contexto se dá por conta do etnocídio vigente, em que se tem uma postura muito comum de se taxar alguém na rua ou na internet de branco ou negro ou amarelo, pois, o indígena é associado ao estereótipo do índio e, consequentemente, nunca é cogitado. Essa questão falarei um pouco mais adiante.
Em meio a essas questões de identidades, tem surgido um discurso de uma nova identidade: afroindígena, que é uma pessoa com ascendência negra e indígena. Não necessariamente é uma pessoa que não tem ascendência branca, mas não é isso que e leva em conta.
Confuso? Um pouco.
Retomemos quando falei de identidade. No Brasil, o Censo de categoria racial é feito por autodeclaração. Ou seja, perguntam qual sua cor/raça e você responde dentro de uma das cinco categorias supracitadas. No entanto, as políticas indigenistas no século XX estabeleciam que os índios precisam de heteroidentificação, isto é, a identidade indígena precisa ser confirmada por terceiros (geralmente um agente do Estado através do antigo SPI e da atual Funai) e somente com a Constituição Federal de 1988, rompe-se com a noção de categoria social transitória, ao menos no estatuto jurídico. Após 2004, quando a Convenção 169 da OIT foi promulgada no Brasil (ratificada em 2002), os povos originários garantiram o seu direito à autodeclaração, indo na contramão do Estatuto do Índio e da Funai (fundamentada nos princípios do Estatuto) e conquistando o direito de não estar submetido ao Estado para determinar quem é indígena ou não, retomando (mesmo que minimamente) nossa autonomia de autoadministração. Como a OIT é de estatuto supralegal, ela só está abaixo da Constituição e esta não dispõe de dispositivos referente à autodeclaração da identidade indígena.
No entanto, a Funai em agosto de 2017 respondeu ao questionamento de um indígena Tupinambá sobre a questão da autodeclaração da seguinte maneira:
É verdade que a Convenção 169 da OIT não é simplesmente sobre dizer “eu sou indígena” e acabou, há complexidades e é fundamental a questão do nosso pertencimento étnico, que é coletivo. Contudo, a resposta da Funai em colocar a questão da “formalização” faz com que se questione se realmente temos o direito garantido de nos autoadministrar e autodeclarar ou se o Estado ainda mantém o monopólio de dizer quem é indígena e quem não é.
A sociedade tem papel fundamental nisso também, porque ela atua como agente legitimador do monopólio estatal acerca da identidade indígena, à medida que reproduz o discurso propagado pelo Estado do que é o índio. Em que há a constante postura de negar a indivíduos suas autodeclarações indígenas dizendo que “não são índios” porque não preenchem todos os requisitos estereotipados da cartela imaginária do que é ser indígena. E aqui não estou falando somente sobre a questão de indígenas urbanos, é comum ver em matérias de jornais, sobre representantes indígenas aldeados, comentários que dizem coisas como “é falso índio!”, “nem tem cara de índio, isso não é índio de verdade”, “tá falando português, não é índio”… ou mesmo coisas como “usa celular? computador? calça jeans? óculos? tem carro? vai à universidade? falso índio”, “é só descendente, eu também tenho uma bisa índia”. Em suma, constantemente temos nossa identidade negada, seja pela sociedade, seja pelo Estado. E morar na aldeia não livra nenhum indígena de ouvir comentários do tipo.
É um processo de violência que nos atinge em qualquer ambiente, porque no pensamento social do brasileiro, deveríamos ter sido desaparecido no século passado, haja vista que éramos somente uma categoria social transitória e no período da ditadura militar, o governo explicitamente ter colocado como objetivo o extermínio dos povos indígenas (como evidenciado no Relatório Figueiredo).
E onde entram os afroindígenas?
Bom, como já falado sobre o processo de miscigenação e das políticas de etnocídio, muitos indígenas nascem e crescem em meio urbano e são designados como pretos, pardos ou até brancos (já vi também amarelo, por incrível que pareça). Essas pessoas crescem e (nem todas) buscam seu resgate histórico e étnico, iniciando o que chamamos de processo de autodeclaração. Não é algo fácil, não é algo simples, não é acordar um dia e gritar: eu sou indígena! Longe disso.
Entretanto, é preciso reconhecer que essas pessoas muitas vezes partilham de outras ancestralidades, além da ancestralidade indígena. Retomando a primeira parte que expus sobre identidade ≠ ancestralidade. Mas, tem surgido pessoas que reivindicam as ancestralidades indígena e negra e se autodeclarando afroindígenas, discursando como viveram a infância e adolescência se reconhecendo como negras, que não são “lidas” como indígenas, que não podem abrir mão da ancestralidade negra. No fim, o lado afro prevalece e o lado indígena fica na penumbra… mas não há somente pessoas que se entenderam durante uma parte da vida como negras reivindicando essa identidade, há casos de pessoas brancas que também estão nessa questão, pois, argumentam justamente que “também têm ancestralidade africana e indígena”, como nesse caso que registrei de uma mulher branca:
Não é uma observação apenas minha, não é um incômodo apenas meu, mas é recorrente a postura de atuação dessas pessoas no movimento negro, ao invés do movimento indígena, e quando se fala sobre a ancestralidade indígena, é sempre de um forma idealizada sobre a avó, bisa ou tata (que provavelmente foi estuprada) ou exaltando a questão das religiosidades e cosmologias indígenas, aquela coisa meio exótica, sabe?
Particularmente, acho improvável uma atuação protagonista nos dois movimentos, pois, são processos históricos e sociais diferentes, que compartilham de aspectos, mas que até entre si diferem. Sim, estou falando de racismo, escravidão, genocídio, marginalização, encarceramento, violência policial, etc. Mas todas essas questões se manifestaram e se manifestam de maneiras diferentes entre indígenas e negros. Não são somente os processos históricos que diferem, as frentes de luta, as perspectivas e as atuações dos movimentos são gritantemente diferentes.
Pra mim, é preciso que se reconheça isso e que se faça uma decisão política de reivindicar uma identidade racial, ao invés de criar uma identidade birracial. E essa reivindicação não significa abrir mão da ancestralidade negra ou indígena ou ignorar as suas experiências de vida. Eu falo como uma pessoa que também carrega algumas marcas da minha ancestralidade negra em mim, mas a minha identidade é indígena. Eu sou indígena. Não sou “descendente” de indígena. Não é porque sou “mestiça” que deixo de ser quem eu sou, porque brancos, negros e amarelos podem ser mestiços à beça sem serem questionados sobre essa miscigenação e terem suas identidades negadas somente por isso. Por que pra nós, indígenas, é diferente? Não deveria, afinal, todos são “mestiços” (ressalto de novo que “mestiço” é sobre genética também, porque mestiçagem é o contrário do purismo).
“Mas você não é lida como indígena”
Ninguémé lido como indígena praticamente nessa sociedade, porque vamos lá de novo: permeia o pensamento social de que o indígena é o índio, o que carrega consigo todos aqueles estereótipos. Só de falar português, um indígena já tem sua identidade questionada, embora constantemente escute: “mas você até parece”, “você é descendente né?”. Por que parecemos? Por que somos descendentes? Por que não podemos simplesmente ser? Eu já li por essa internet comentários de não-indígenas que parentes internacionalmente conhecidos na luta não são “índios de verdade”, porque estavam usando óculos ou tinham um celular ou porque “o olho nem é tão puxado”. Pra sociedade, a gente não teve o direito de sair do século XVI, tanto que é comum ler e ouvir por aí que “índio de verdade é aquele que vive isolado na ‘tribo’ no meio do mato”… ou você nunca viu alguém falar isso? Ou quem sabe até mesmo você já não falou isso, né?
Escrevi um pouco mais sobre isso de “leitura social” aqui
Pra finalizar essa parte,
Por que, então, uma identidade afroindígena é etnocida?
Como a próxima parte já enuncia, um argumento é de que ela perpetua uma visão idealizada, romantizada, estereotipada e até racista do que é ser indígena.
Resumidamente, vou apresentar mais alguns argumentos em formas de tópico pra facilitar a minha vida e — tentar facilitar — a leitura de vocês:
A criação de uma identidade afroindígena abre precedentes para a criação de uma identidade euroindígena e não se poderá reclamar da segunda se aceitar a primeira.
Talvez faça sentido evocar o argumento de que negros e indígenas são minorias e sofrem com racismo, por isso não se equipara à criação de uma identidade euroindígena, pois, estaríamos falando de pessoas brancas reivindicando uma identidade birracial em que uma detém de poderes e privilégios decorrentes da estrutura racista, enquanto a outra sofre dos processos de violências e violações decorrentes do racismo. Sinto muito, mas não faz sentido.
Por quê? 1) Processos históricos e sociais distintos entre negros e indígenas; 2) manifestação do racismo diferente entre negros e indígenas; 3) diferentes violências e violações aos povos originários e ao povo negro; 4) diferentes concepções de mundo entre os movimentos indígena e negro; 5) etnocídio é uma violência específica usada contra povos originários, de forma que não-indígenas não foram/são alvos dessas políticas; 6) não-indígenas não se constituem enquanto “negros” ou “brancos” por serem de determinadas etnias (explicarei na terceira parte desse texto); 7) burocraticamente, embora seja um argumento meio bosta (mas também não descartável), não existem categorias de classificação birracial como afroindígena, então, ao te perguntarem no SUS ou no IBGE (por exemplo) como você se autodeclara, você fará uma opção, certo? Essa decisão talvez diga muita coisa.
E também é impossível ser indígena e não-indígena ao mesmo tempo basicamente, porque ser negro é ser não-indígena, então, como criar uma identidade birracial que por si só já é contraditória, haja vista que etnocídio é referente aos povos originários e constituinte em nossos processos históricos, sociais e culturais? Digo, não dá pra falar em indígena e não falar em etnocídio, então, enquanto não-indígena não há essa questão. E aí, como faz? Divide os momentos em que sofre as violências etnocidas e os momentos em que não sofre? Isso não faz sentido e isso é uma construção etnocida por si só, porque blinda pessoas não-indígenas não-brancas em nossos apontamentos de posturas e falas etnocidas.
Mas por que não poderá reclamar de euroindígena e aceitar afroindígena? Se estamos falando de identidades birraciais ou plurirraciais, então, é preciso saber lidar que pessoas privilegiadas pela estrutura racista (brancas) se valerão dessa ferramenta para criar identidades birraciais que as contemplem, inclusive euroafro/afroeuro, porque essa questão vai além da identidade indígena, atinge também os movimentos negro e amarelo. Não somente criar novas com “euro”, mas já estão utilizando o próprio “afroindígena”.
Ser indígena não é somente uma questão puramente de ancestralidade (no sentido que estou trabalhando nessa parte, porque explicarei o outro sentido na próxima também)
Sem partir do pressuposto de que o que direi do modo como direi é um consenso ou de que estou estabelecendo que é isso para todos os povos, mas é uma constatação que sempre vejo nos debates entre nós, indígenas, sobre nossas identidades, sobre quem somos. E talvez eu esteja errada e tenha interpretado errado meus parentes e compreendido erroneamente os encantados e meus ancestrais, mas a questão de nossa religiosidade e espiritualidade nunca está descolada de quem somos, de nossa identidade, pois, a divisão do mundo físico com o mundo espiritual é uma criação do não-indígena. E também tem a questão de que “sangue indígena” no Brasil todo mundo tem, afinal, foi até uma política de Estado forçar relacionamentos inter-raciais.
Mas também envolve nossos processos de formação e de descolonização de pensamento, nossas estruturas de pensamento, posturas e visões de mundo, nossas perspectivas e também nossa atuação na luta social e política. Neste sentido, há incongruências entre os movimentos negro e indígena. Não estou falando de forma alguma que não devemos nos aliar e construirmos lutas conjuntamente. NÃO. LONGE DISSO! É sobre o reconhecimento das diferenças entre os movimentos e suas atuações e perspectivas. Algo perfeitamente normal e saudável de se pensar, para que inclusive construções conjuntas sejam feitas harmonicamente e produzam resultados positivos para ambos.
A identidade indígena acaba sendo apagada na própria concepção da identidade afroindígena
Como uma parenta falou e de maneira a descontrair escrevo cá: “por que o afro vem na frente do indígena se nós estávamos aqui antes? Deveríamos falar em indígena-afro”. É em tom de brincadeira, mas poderíamos até questionar a construção de termos aglutinados, né? Mas deixo isso pra quem é da área, hahaha.
Falando sério agora e referente a atuação social e política: como eu disse anteriormente, geralmente vejo pessoas que se autodeclaram negras e atuam no movimento negro reivindicando uma nova identidade afroindígena, fazendo referência ao lado indígena pelos aspectos culturais somente. Isso é problemático e incômodo não só pra mim, até porque só tive coragem de escrever sobre isso porque diversos parentes me deram apoio. Mas nesse cenário de protagonismo central no movimento negro e rápidas aparições no movimento indígena, temos questões de incompatibilidades sobre decisões e perspectivas históricas que nos enfraquece, que nos invisibiliza, que nos apaga… e também ferem nossas organizações sociais e políticas ancestrais (que falarei na próxima parte).
Não há atualmente um movimento social e político que pauta identidades birraciais como afroindígena, então, as atuações se dão por dois movimentos distintos entre si (se houve a atuação no movimento indígena, que é geralmente quem sai perdendo em meio a isso tudo, por conta do etnocídio). Os indígenas que também têm ancestralidade negra, eu vejo que há justamente a questão que pontuei: o reconhecimento disso e sua valorização, mas não é a reivindicação de quem somos. Afinal, sabemos que continuamos indígenas independente de “miscigenação”.
Inclusive, é importante colocar em questão que o processo de constituição das identidades raciais carregam cinco séculos de processos estruturantes e políticas muito delimitadas, que sistematicamente apagaram nossas identidades indígenas da história em uma tentativa de nos alegorizar em um passado, mas na prática, nós estivemos sempre em disputa de trazer à tona nossas narrativas e como a identidade “índio” sempre esteve presente e como se configurou, perdurando até os dias atuais. Assim, colocar uma identidade que remonta nossa identidade indígena sem realmente nos colocar em questão, como sujeitos ativos e com vozes sobre nossas histórias, é o mesmo apagamento que fomos submetidos e lutamos contra.
A identidade afroindígena perpetua uma visão romantizada e até racista do que é ser indígena
Optar pela criação de identidades birraciais ou plurirraciais quando se pensa em miscigenação com indígenas é uma forma de manter a ideia de que para ser indígena, é preciso de purismo racial.
Sim, essa parte é só isso mesmo, porque acho que a construção do meu pensamento já foi exposta ao longo do texto e, com isso, dá pra finalizar essa segunda parte da minha reflexão em três linhas. Meu intuito não é desrespeitar ninguém, apenas expor uma reflexão minha que parte de um incômodo e espero que mais debates sobre o tema sejam feitos, assim como uma parenta querida vem fazendo também, a Geni Nuñez (Instagram: @genipapos).
Identidade étnica
Por fim e não menos importante (muito pelo contrário, é o principal), não há como falar em identidades indígenas sem falar em nossas identidades étnicas, porque o que nos constitui enquanto indígenas é nosso povo. Nesse sentido, coloco aqui uma breve explicação sobre o que é a ancestralidade pra nós, a partir das sabedorias que obtive com anciãs e anciãos e ouvi também de lideranças indígenas: nossa ancestralidade é nossa identidade. A ancestralidade pra nós não é um entendimento de simples “ascendência sanguínea”, mas é nosso pertencimento coletivo e conexão com nossos ancestrais que nos colocam em pertencimento com nossos povos. Nossa ancestralidade é nossa força ancestral que finca nossas raízes no solo e nos permite compreender nosso pertencimento coletivo.
Esse é outro ponto extremamente importante: pertencimento coletivo. Nossas identidades se constituem por um pertencimento étnico e reconhecimento coletivo de nosso povo. Nós temos responsabilidades com nossos povos, não somos “indígenas” de maneira genérica, somos diversos povos com suas particularidades, diversidades e especificidades. Por isso, disse antes sobre ferir nossas organizações sociais e políticas, pois, “indígena” não é uma categoria racial que se basta por si só, ela evoca a necessidade do pertencimento e reconhecimento étnico, que se dá coletivamente. Não há como estarmos sozinhos em nossas organizações e atuações políticas, porque estamos com nossas coletividades. O canto “pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não assanha o formigueiro” não é somente sobre nossa luta e resistência, mas sobre como não caminhamos só, como nossas vozes não são somente nossas, mas carregamos conosco a vozes de nossos ancestrais, de nossos povos, nós todos enquanto parentes estamos em união.
A identidade “afroindígena” não evoca nossas identidades étnicas, ela esvazia o nosso ser, coloca-nos como uma identidade racial genérica, que desconfigura nossas organizações ancestrais de reconhecimento étnico e coletivo. É o que nós tanto lutamos contra o processo de racialização e etnocídio, que buscam nos tornar uma generalidade que não condiz com nossas perspectivas de vida, de luta, entendimento social e político e de nossa luta. Carrega consigo a perpetuação da ideia de como se nós não pudéssemos ter outras ancestralidades (no primeiro sentido que falei) para sermos indígenas, de que precisamos ser “puros”.
As pessoas dizem: “mas eu não posso abrir mão de outro lado meu que é tão importante pra mim”, mas esse é um entendimento ocidental e eurocêntrico, porque desde sempre nós fomos e somos múltiplos e diversos… e nossos ancestrais sabiam disso.
De forma que raça é sobre discursos, precisamos entender que discursos são políticos, não existe imparcialidade nisso, então, nós reivindicarmos nossas identidades indígenas em uma sociedade que a todo custo tenta nos apagar e negar quem somos é também um posicionamento político, de mostrar que continuamos existindo apesar de tentarem nos empurrar uma ideia de purismo (purismo esse que era uma ideia europeia na verdade, afinal, eles buscavam manter a “pureza” de suas linhagens mantendo relações inclusive entre familiares de primeiro grau). Ouvi na fala de um parente Tupinambá inclusive que nossos ancestrais sabiam que purismo não é um fator de adaptabilidade ao meio e também gera doenças, por isso diversidade genética, que se dava por relacionamentos entre diferentes povos, sempre esteve presente em nós. E mesmo com essa diversidade sempre presente, nós sempre continuamos sendo quem nós éramos, com nossos povos específicos.
Se sempre fomos diversos e múltiplos, por que não continuaríamos sendo atualmente? Só nos prende a um passado imaginário de purismo quem desconhece a nossa história.
Estar perdido em meio a sua identidade não deve ser motivo para romper com nossas tradições ancestrais e métodos de organização social em nosso pertencimento étnico. Se a vontade é de não “abrir mão” do sangue indígena que carrega, é perfeitamente possível vivenciar e conhecer as culturas indígenas. Também não podemos naturalizar algo que não nos é pertencente: as ideias de colorismo e leitura social. Pois, nossas identidades não se definem pelo tom de pele, pelo tipo de cabelo, mas por nosso pertencimento e reconhecimento étnico, que se dá de maneira coletiva… há muita coisa envolvida que nós temos muito cuidado para manter viva essa memória e honrar nossos ancestrais que lutaram para não deixar isso se perder, pra não deixar os projetos etnocida e genocida vencerem.
Se nós, indígenas, acatarmos com o discurso de “leitura social”, estaremos perdendo o que nos é primordial em nossos pertencimentos: nosso povo, nossa coletividade. Não é a palavra de terceiros, dos não-indígenas, que têm o poder de definir nossas identidades, nós temos nossos métodos e ferramentas para nos autoadministrar, para nos reconhecer enquanto povos originários, por mais diversos que sejamos. Lutamos para acabar com a tutela e conquistar nossa autonomia, pois, que não percamos também o que sempre nos foi constituinte. Nossas identidades não são individuais. Os não-indígenas não sabem reconhecer nossas pluralidades de rostos, cores e traços, quem dirá saber nos diferenciar etnicamente. Não deixemos que eles ditem o que nós somos pela leitura que eles fazem de nós.
Não somos do nosso povo porque somos indígenas (como seria caso a identidade racial fosse o que vigora sobre quem somos, assim como é entre não-indígenas). Somos indígenas porque somos do nosso povo, porque temos nosso povo. Para ter o “pertencimento racial” indígena, é preciso ter o pertencimento étnico.
Seguimos sendo indígenas reconhecendo que podemos ter todas as tonalidades de pele, pois, quando dizemos que “somos da cor da terra”, é porque nossa Mãe tem muitas cores, desde a mais clara até a mais escura; reconhecendo que temos todos os tipos de cabelo, pois, assim como o liso pode ser a queda da cachoeira, o cacheado e o crespo podem ser a copa da árvore, o careca pode ser a semente que germina. Somos a terra e nossos traços estão presentes não só em nossos corpos, mas também na Natureza. Nos vemos em tudo o que nos cerca, nos constitui e nos conecta.
Seguimos sendo indígenas independente da “mistura” com outros povos, inclusive não-indígenas, porque a nossa identidade está em nosso povo e tudo o que carregamos a partir desse pertencimento e reconhecimento étnico, que é coletivo e é ancestral.
Não tenho certeza se esqueci de pontuar algo importante ou de explicar algo melhor, mas foi o que senti que deveria escrever nesse momento, da forma como escrevi.
Por mais feliz que eu possa estar em ver uma pessoa negra ganhando uma bolada, (man)ter consciência de certas coisas significa que nem com todas as louras perfumadas do mundo vou conseguir ignorar o futum de merda por baixo dos panos. Uma vez conhecida a dinâmica secular das coisas, fica difícil desver o que já devia ser pra lá de reconhecível
Adoraria achar que é a inocência que leva a tantos de nós a festejar a vitória da Thelma e até considerar tal feito um passo rumo a “reparação histórica”, mas falo demais e há muito tempo do umbiguismo que (co)move a atual geração de pretos e pretas pra me dar a esse luxo. Até entendo que muitos não entenderão as migalhas que esse 1,5 milhão representa na fila do pão, mas acho que quem não quer entender o que a demanda pelo Auxílio Emergencial significa já escolheu não enxergar nada que desfaça seus devaneios de Cinderela ou correntes filosóficas de marfim enegrecido. #Joices
O mais zoado é que geral já deve ter visto algum filme sobre cassino ou já ouviu em algum outro lugar o que todo mundo já sabe, ou deveria saber, sobre jogos de azar: a banca/casa sempre ganha. Afinal, não sendo uma instituição de caridade não há como esperar que alguém “dê” milhões a qualquer alma “sortuda” sem ter como ser ressarcido(a) de alguma forma. Aquele ditado: NÃO existe almoço grátis. No caso da plim-plim hoje foi noticiado que a emissora ganhou mais que o dobro de todos os prêmios finais somente em uma única noite de exibição. Contudo, esse não foi o maior ganho dos ioiô Marinho essa edição. Todo esse alarde e repercussão ajuda muito nos recentes esforços da marca em se desvencilhar da imagem de racista/conservadora que a fez não jogar pesado – como sabemos ser capaz – contra a campanha presidencial de um candidato que flertava com a ditadura que a fortaleceu. Uma jogada necessária em tempos de politicamente correto e #Repre$entatividade para os mesmos responsáveis pelo fuzuê “intelectual” contra as cotas, por uma Salvador fictícia majoritariamente branca e pela vitória de uma racista nada velada na última edição. No entanto, o golpe de mestre dessa cartada final foi o banho de água fria que a gigante das telecomunicações deu nos influencers, pois caso alguma das outras ganhasse a Globo estaria assumindo pro mundo que as narrativas fabricadas e editadas por ela não tem mais peso nenhum diante do impacto dos exibicionistas-solo de redes sociais. Um golpe tão bem dado que passou até batido diante dos festejos dos cidadãos “desconstruídos” que demonstraram estar antenados com o que há de mais raso no debate racial.
Dito isso, o que mais me incomoda nesse bando de gente autodeclarada “consciente” comemorando o pirão cheio de uma só formiguinha é que quase ninguém parece se atentar pro retrocesso que a narrativa da personagem remete. Grande parte dos argumentos em defesa da Thelma são tão meritocráticos que não me espanta que tantos bozominions conhecidos(as) – tá boa, Larissa? – chegaram a endossar a torcida. Alguém mais otimista poderia achar que teria mais gente ligada nos “proceder”, mas nem…
O que teve de gente saudando a participação de uma pessoa negra que “não se vitimiza” – como o concorrente que apenas compartilhava a realidade que ele e tantos mais encaram – não tá no gibi! A novidade foi a dentadura dos #PretosNoTopo caindo ao não apontar o erro rude nisso porque essa de preferir negros que não levantam bandeira (radical/segregacionista) enquanto esperam que quem a levante faça plantão voluntário pra mover todos os pauzinhos possíveis tá mais que batido. Outra marola que passou desapercebida foi o argumento de que “ela merece porque batalhou muito para superar obstáculos até se formar médica”. Zero novidade num país que constantemente reforça que não há nenhum critério de sucesso que não passe pela busca de se igualar aos herdeiros da casa grande. A essa altura, espero não espantar ninguém que a cambada #OkoopaTudo correu juntim com os cidadãos “de bem” na crença de que não adianta ralar pra crlh se não for pra correr atrás de um diploma/matrícula pública, pois só instituições brankkkas são honrosas o suficiente para conceder méritos “legítimos”. Mas fazer o que se a maioria nem vê problema em louvar como ela rebate o racismo sem deixar de ser ‘educada’” – leia-se: me agrada assistí-la engolindo sapo a beça e sendo bem professorinha com dondocas que sempre tiveram mais acessos e oportunidades que ela sem a amarras ou ameaças diretas.
Agora me diz como numa sociedade profundamente racista como a nossa poderia estar se “desestruturando” – ou a um passo a mais de se desestruturar – quando o principal porta-voz dessa mesma sociedade escravocrata permite que uma única pessoa negra ganhe uma bolada – merreca em suas projeções de lucro? E ó que o clima é de quarentena e suspensão e recessão econômica! Adoraria não precisar dizer o óbvio, mas se toda a nossa estrutura social/política/econômica/etc. depende do racismo sobre a maioria da população para se manter de pé, não será um ou alguns poucos indivíduos negros erguidos/pinçados que vão fazer verão. E essa é a parte mais fétida debaixo desse “banquete”: a nítida mensagem de que para vencer no jogo dos brancos a gente tem que saber dançar a valsa deles ao ponto de não mais “ver cor”, como canta o mito da democracia racial. O nem tão implícito recado de que, caso queiramos “subir” ao patamar deles nossa solidariedade com eles deve se sobrepor aos com os nossos. Aquele ditado: a premissa básica do racismo continua sendo o narcisismo europeu – que nos leva a atribuir proveito somente no que reflete os valores/ambições que servem de alicerce pra casa grande. #AGenteSeVêNaGlobo
Por fim, o mais bizarro dessa comoção toda é que, além de ter sido na edição seguinte a da vitória de uma das participantes com mais declarações racistas rebatidas na casa, na penúltima edição outra mulher (discutivelmente, porém autodeclarada) negra se consagrou campeã em cima das mesmas acusações de vitimismo que limou Babu da final. Ou seja, nem três anos se passaram e o público já saúda a emissora pelo feito “inédito” pela segunda vez. Um feito nada surpreendente de uma edição autonarrada como sendo da #Sororidade embora todos saibam ser um programa produzido, dirigido, apresentado e comentado por homens nada diverso e agora, segundo aclamação pública, bem menos racistas. Depois essa mesma galera “ciente” tem a pachorra pra criticar os minions por ignorarem o que tem sido publicado por estudiosos “com cor”. Vai entender! Aquele ditado: na tela da TV, no meio desse povo, a gente vai se fazer de bobo. Esperar o que, se boa parte dos peixes que caíram nessa rede consideram “Empoderamento se recortar/podar pra caber em ideologias com pedigree europeu e se sentem representados por um programa que há duas décadas tem uma cota máxima de duas pessoas negras?!
Bruna Kury e Walla Capelobo Texto originalmente publicado na Glac Edições
Esse texto foi escrito durante a quarentena por quatro mãos como exercício de dividir a fala e compartilhar questões.
Legenda: momento em que a faixa/bandeira “mate o branco dentro de você” (frase do anarquista e ex pantera negra Lorenzo Kom’Boa) foi hasteada no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. O trabalho é de Bruna Kury e foi performada por Charlene Bicalho e Jéssica Porciuncula, durante a residência MotorHome [PPPP] – (foto por: Pedro Ermida Cruz).
Temos vivido uma grande luta contra uma nova pandemia mundial, a COVID-19 – corona vírus – nos chega exigindo cuidado, cuidado onde tocamos, onde vamos. Lembro de, a alguns anos, ver uma pessoa passando álcool em gel antes de segurar no ferro do metrô. Fiquei em choque, nojo de gente. Essa atitude já me soava racista, em vista de que era uma pessoa branca, que fazia isso com olhar de desprezo às outras pessoas dentro do vagão. Óbvio que devemos nos cuidar e seguir a risca a quarentena o máximo que podemos, devemos usar álcool em gel, lavar nossas mãos, higienizar. No entanto, devemos nos atentar, somos sobrecarregadas de palavras, gestos e outras representações que colaboram para a disseminação do racismo. Em nossos casos, racismo e transfobia.
Fiquemos atentes a essa política hegemônica racista que quer a todo custo nos subalternizar, podar nossas afetuosidades, segregar e nos colocar como sujes. Isso faz parte da maquinaria colonial, máquina de moer. Um olhar sob a pandemia que pensa raça, classe e gênero é fundamental! Em diversos lugares do mundo a mortabilidade é racializada. Negres sentindo ainda mais o racismo de cara lavada!
Vamos esclarecer escurecerenegrecer as coisas…
Mantenha a distância caso queira viver, isso é dito diariamente pelas grandes corporações de comunicação, uma mistura de telemedo e bioterror. Enquanto a classe média se orgulha de sua criatividade para viver a quarentena com cursos online, yoga, auto ajuda e textos motivacionais, uma parcela da população, a zona de sacrifício colonial, mais uma vez é jogada a própria sorte, endossando a categoria dos INFECTÁVEIS, corpas que pelas manobras de exclusão do cistema dependem da e são a própria rua. Pessoas sem casa estão na linha de frente, no que se refere aos riscos, acompanhadas das trabalhadoras/trabalhadores informais (camelôs, prostitutes…), indivíduos que dependem diariamente dos seus trabalhos para existirem. Aqui também cabem os serviços chamados de essenciais, como o trabalho de funcionáries subalternizades nos supermercados, farmácias, lotéricas, depósitos, assim como de entregadores de guloseimas des privilegiades de aplicativo, etc. Corpas que são marcadas pela raça (pretas y indígenas) e dissidências de gênero e sexuais. Fatores que aumentam suas infectabilidades e ressaltam a colonial e histórica ausência de políticas do cuidado. Mesmo assim, as mais vulneráveis, quando ainda têm fôlego, GRITAM.
As fronteiras, linhas forjadas nas empreitadas coloniais, hoje ganham um novo sentido: proteger do agente exterior patogênico. Proteção não a nós, mas aos interesses econômicos. Os Estados-nações renovam sua soberania com suas táticas de guerra para promover a prometida saúde e a seguridade das vidas burguesas, cisgêneras, brancas e normativas. Os mesmos estados nacionais que a meses atrás, impulsionados por políticas neoliberais, efetuavam cada vez mais cortes nas áreas sociais, se apresentam hoje como os messias da vida, com anúncios irreais de verbas monetárias a todo momento como respostas à crise sanitária. As grandes corporações aproveitam o momento de extrema fragilidade social para se auto promoverem com divulgação de valores pequenos (a pensar nos lucros que possuem) em combate ao inimigo invisível. Empresas como a Vale, mineradora ecocida, inimiga da vida em sua essência, que ao mesmo tempo doa recursos para o sistema único de saúde brasileira e impede que seus funcionários cumpram isolamento social, exigindo deles os riscos da contaminação em nome da contínua exploração mineral. Ou bancos como Santander, Itaú e Unibanco, que doam para suas próprias instituições sociais. Empresas que encaram a saúde como oportunidade de mercado, investimentos a curto e longo prazo.
Existe um desejo pela volta do normal, a vida que sempre tivemos. Mas que normal é esse? O normal são as velhas construções coloniais que corroboram para a dizimação de determinadas corpas, afinal estamos inseridas a séculos em práticas genocidas as populações pretas, indígenas, travestis, trans, boycetas, bichas, sapatonas, pessoas com diversidade funcional, soropositivas e demais dissidências. Sociedades que têm como estrutura dicotomias e binariedades, manipuladas de acordo com os interesses das hegemonias globais e locais. O novo normal, ou o pós pandemia, talvez não seja nem melhor nem pior do que já ocorria antes, apenas diferente, resultado de séculos de supressão bem sucedida de resistências e necropoder pulsante. Aos que se autodeclararam, por meio de suas máquinas de guerra, donos de tudo, o normal do futuro parece prospero.
É hora de mais uma vez reinventar as formas de se fazer vida nesse presente pouco propício a existência “humana”. Nós, da cor da terra, herdeiras das sabedorias indígenas, já sobrevivemos ao fim do mundo, também pandêmico, no século XVI. Sobrevivemos ao mesmo tempo que perdemos o nosso mundo. Nós pretas, atravessamos calunga grande e aqui fundamos presença. Nós travestis, transvestigeneres, bichas, sobrevivemos a pandemia do vírus do HIV, arma tecnobiológica normativa. Nós viemos de sobrevivências seculares do patriarcado matador. É o tempo de lembrar dessas técnicas de resistência que herdamos e utilizá-las nesse momento que enfrentamos. Pensar em casulos, ver as potências interiores para armar-se de vida, individual e coletivamente. Fase de buscar em nossas raízes as respostas que nos farão vivas e saudáveis para o caminho que nos espera. Olhar para dentro de si e lembrar o que nos faz encarnar o aqui e agora. Mirada essa que não seja narcisista como a cultura eurobranca tanto tentou nos ensinar, mas para imaginar as formas como Yemanjá e Oxum usam seus espelhos, reflexos que trazem ensinamentos de vencer guerras (I).
Para nós, dissidentes, a distância social não é algo novo. Já estamos separadas da cisheteronorma e pagamos o preço de nossas vidas seguirem caminhos trilhados pela precarização, o que faz com que nós tenhamos em mente a necessidade de um pacto de proteção contínua nesse momento que exige uma dose maior de cuidado. É necessário conjurar vida para depois do coronavírus! É sempre bom lembrar das palavras de Conceição Evaristo para dar continuidade aos processos de vivências elaborados por quem sempre soube sobreviver: “Eles combinaram de nos matar. E nós combinamos de não morrer”.
Legenda: vídeo realizado pelas autoras para complementar a escrita deste texto.
NOTAS
I – Mensagem transmitida por Conceição Evaristo durante live Instagram dia 14/04/2020.
Bruna Kury é brasileira, anarcatransfeminista, performer, artista visual e sonora, atualmente reside em São Paulo (BR) e desenvolve trabalhos em diversos contextos, seja no mercado institucional da arte ou em produções de borda. Focada em criações atravessadas por questões de gênero, classe e raça (contra o cis-tema patriarcal heteronormativo compulsório vigente e a opressões estruturais-GUERRA de classes). Já performou com a Coletiva Vômito, Coletivo Coiote, La Plataformance, MEXA e Coletivo T. Atualmente investiga sonoridades no pósporno e a criação de objetuais que são ramificações do trabalho com performance. Participou da residência artística Capacete no Rio de Janeiro, Comunitária na Argentina, Festival Anormal no México, esteve recentemente compondo a organização da residência póspornopyrata em Fortaleza (CE) e performou no festival Libres y Soberanas aka Performacula em Quito no Equador.
Walla Capelobo – mata escura, lama fértil. Transfeminista contracolonial, artista e curadora independente. Graduada em Historia da Arte (EBA/UFRJ), mestranda no PPGCA –UFF. Compõe conhecimento, experimentações artísticas a partir das heranças de bem viver e existência recebida pela fina camada de sua pele. Criações que recria o mundo, sua corpa, suas dores e suas curas. Atua em grupos de estudos, Formas de habitar o presente (UFRJ) e GeruMaa: filosofia e estética africana e ameríndia (UFRJ).
Se você pode e quer ajudar pessoas LGBTQIA+ nesse período de isolamento, as autoras sugerem algumas casas de acolhimento
Casa Aurora – Salvador-BA (@aurora_casalgbt) Instituto Transviver – Recife-PE (@transviver) Casa Chama – São Paulo-SP (@casachama) Coletivo e Casa de Acolhimento LGBT+ Arouchianos – São Paulo-SP (@Arouchianos) Casa Florescer – São Paulo-SP (@casaflorescer_) Casa Nem – Rio de Janeiro-RJ (@casanem_) Casa Miga – Manaus-AM (@casamigalgbt) Astra LGBT – Aracaju-SE (@astrallgbt) ONG Transvest – Belo Horizonte-MG (@ongtransvest)
A Editora Monstro dos Mares é uma alternativa de publicação de baixo e baixíssimo custo para quem produz textos acadêmicos sobre epistemologias dissidentes que de alguma maneira se relaciona com as questões anárquicas de nosso tempo. Entre elas, teoria queer, feminismos, giro descolonial, anticivilização, cultura hacker e outros.
Além de receber material produzido por monas, minas e manos, coletivos e singularidades, a editora está disposta a buscar divulgação para trabalhos que podem contribuir na formação de pessoas interessadas num modo de compreensão de mundo autônomo, libertário, não-binário e anárquico.
Pessoal do Norte/Nordeste que ainda não conhece o catálogo da editora pode entrar em seu site e conferir, estamos realizando envios para toda a região.
Nos arreganhamos a pensar sobre raça e sexo-gênero-dissidência, interseccionando as opressões e privilégios, pensando nesses marcadores sociais que hierarquizam as relações. Como isso reverbera na construção da arte contemporânea?
A proposta é ascender as corpas e sexualidades transviadas e degeneradas em potência do fazer criativo enquanto máquina insurgente, conectadas por uma rede de cuidado, afetiva e de modificação. A residência propõe o estímulo ao erro, já que o bug do sistema somos nós. Processos de localização da opressão à táticas de guerrilha póspornô e possibilidades de rupturas ao cistema heteromachobranco.
A residência pretende conectar artistas que trabalham com póspornô e decolonização e/ou tem ações e vivência de combate e questionamento à hegemonia racista e cis hetero patriarcal. Pq a arte legitimada é a do homem hétero cis branco?
A hierarquia e a linearidade da arte como senhor deus colonizador. Como produções dissidentes articulam fora do grande circuito elitista das artes?
Propomos pensar produções póspornô sudakas para questionar a colonização dos corpos. Quais os tensionamentos sobre a presença destas reflexões no campo artístico? É possível dilatar a fronteira elitista e clubista da arte para que a propagação de nossas narrativas se transforme numa estratégia de sobrevivência no cisheterocapitalismo?
### o pornoterrorismo pode ser um marco implosivo da linearidade que dominou a arte contemporânea? ###
PRIMEIRO DIA – 22/10 horário: 17h local: carnaúba cultural aberto ao público
Exibição de vídeos póspornô sudakas. Roda de conversa de abertura.
SEGUNDO DIA – 23/10 horário: 17h local: carnaúba cultural exclusivo para os inscritos
Estações de experimentação póspornô sensoriais
estação1 Faça você mesme.
estação2 VÔMITO. vomitamos a velha máxima desnecessária dos concretistas, modernistas, tropicalistas, queers modinha. Oiticica is dead! Vomitamos a nós mesmas para nos reinventar, para não sucumbirmos caladas, para perturbar a norma e implantar desconforto aos que nos subjulgam, vomitamos nossa própria carne, nossa radioatividade, nossos vírus para que todxs se infeccionem, purpurina de nossos ossos. “A antropoemia – o vômito – interrompe a digestão e a evacuação: reverte a dialética ao não permitir que se faça a síntese. Impedido de virar bosta, todo vômito se faz comestível: na contramão da síntese, vomitar é a possibilidade de comer novamente, e outra vez mais. “Contínua transformação do tabu em totem”. Todo vômito “já éramos” alimento. É ao mesmo tempo alimento e dejeto, inclusão e exclusão. Ambivalência. O vômito é o pulsante processo dialético e histórico, instável e informe. Força que não estabiliza.”(ref. a oficina de vömito da coletiva vômito, estação que muta criada por Bruna Kury. no encontro aparece como instalacao.)
estação3 PÓSPORNO SONORO. “As corpas são únicas, podemos expandir nossos sentidos. Nenhuma medicina branca nem igreja, nem família baseada na cisnorma poderá nos castrar ou nos trancafiar em outres ou em nós mesmes. Faremos de nossas corpas festa, de nossos orifícios transmissores de música de nós mesmes, tentáculos e fios.” Tecnologias do corpo, suor, pele, próteses, hibridismo, organismo.
TERCEIRO DIA – 24/10 horário: 17h local: Carnaúba Cultural exclusivo para os inscritos
Debater anarquismos, antihumanismos, autonomia, alimentação e ancestralidade, o veganismo enquanto um instrumento de enfrentamento às lógicas hegemônicas de consumo, criando maneiras alternativas que não se baseiam em nenhum tipo de exploração, especismo ou misoginia.
Monstruosas e Distro Dysca – focades nos tesões apocalípticos que se fortalecem desprezando a falocracia da masculinidade tóxica e civilizada. Gozar em cima das ruínas da heterossexualidade e da família nuclear androcentrada é um ato que transforma os esforços para demolição do heterocapitalismo em um orgasmo lascivo, sendo as vivências e as práticas dissidentes, um vírus que se propaga contaminando os corpos com a descolonização dos desejos e afetos. Os prazeres e a forma como se alcança-os também são políticos e fazem parte de uma subversão estrutural acerca do controle biopolítico dos corpos.
*A proposta é de construirmos coletivamente uma performance póspornô. ‘Salimos a la calle, monstruas, mutantes, queers, sudakas, migrantes, disidentes, lxs que despiertan y quieren despertar a otrxs. Derrumbando los muros que impone el (des)conocimiento, follamos de vuelta los vangloriados culos próceres del fascismo, héroes del colonialismo. Les follamos y en el lugar de los hechos eyaculamos los cuerpos de piedra con verdadera historia. ‘ Ref: fuckthefascism.blogspot.com
QUARTO DIA – 26/10 horário: 17h local: Carnaúba Cultural aberto ao público
MOnSTRA COLETIVA dos trabalhos com integrantes da residência e artistas convidades.
Feira com Monstruosas, Distro Dysca, PósPornôPirata, AnarkoBafo, @kucetaplataforma
A residência PÓSPORNÔPYRATA – intersecções entre arte contemporânea, póspornografia e decolonialidade em Fortaleza-CE é proposta por Rao Ni, Bruna Kury e Gil Porto Pyrata, em parceria com Aline Furtado, Espaço Carnaúba Cultural, Monstruosas e Distro Dysca.
Rao Ni (1990, Fortaleza/Ce) transvyade não binário do corre autônomo. Pesquisa a produção de imagens não normativas que abordam gênero, corporalidades dissidentes e transmasculinidades marikas. Trabalha com fotografia, montagem de vídeo e xilogravura. Atualmente estuda iluminação cênica na SP Escola de Teatro.
Bruna Kury (1987) é brasileira, anarcatransfeminista, performer, artista visual e sonora, atualmente reside em São Paulo (BR) e desenvolve trabalhos em diversos contextos, seja no mercado institucional da arte ou em produções de borda. Focada em criações atravessadas por questões de gênero, classe e raça (contra o cis-tema patriarcal heteronormativo compulsório vigente e a opressões estruturais-GUERRA de classes). Já performou com a Coletiva Vômito, Coletivo Coiote, La Plataformance, MEXA e Coletivo T. Atualmente investiga sonoridades no pósporno e a criação de objetuais que são ramificações do trabalho com performance.
Gil Porto Pyrata é pessoa trans não binária, reside atualmente em São Paulo. Artista de rua, arte educador, palhaço freak, anarcatransfeminista e terrorperformer, pesquisa pospornografias e masculinidades combativas ao heterocispatriarcado, com uso de linguagens experimentais que circulam entre circo/dança/sonoridades/perfomance/textualidades.
Ana Aline Furtado, 1985 artista visual multilinguagem integra a TERRA (coletiva) e-mail: analine.furtado@gmail.com nascida no sertão do inhamuns, região fronteiriça entre PI y CE, no nordeste do Brasil ~ encontra em sua trajetória não-individual a matéria de seus possíveis ~ a atuação como advogada na luta por DDHH é a base de sua vida artística-política ~ pesquisas decoloniais sobre: memória, pertencimento, processos de emergência étnica, território, corpo-denúncia, apagamento, raça, gênero, dinâmicas de descontinuidade da lógica de pacificação, escuta y cura como processo.
Akuenda Translésbicha Monstra animalista, coletora selvagem, kuirlumbista anticivilizatória, hacker institucional, urubruxa, transfeminista antihumanista e agitadora de políticas marginais. Resgata fazeres e conhecimentos ancestrais exterminados pela colonialidade e maneja ações antihegemônicas através de receitas para o desastre!